Dança das Facas -
Carlos Assis

Mesmo que a dor
agrade
Tanto barulho nos
ouvidos
Respirações
pesadas
Mesmo que a noite seja
capciosa
Não falemos com os
espelhos
Espelhos são tão
curiosos
Deixe-os imaginar nossa
face
Deixe-os advinhar a hora
que a lua surge
Deixe-os comentar as
nossas desventuras
Mesmo que o corte seja
cruel
O sangue rubro e
quente
Não apaguemos a luz do
alpendre
Mesmo que o corte seja
doce
A pele suada e
morna
Curandeiros cantam a
mesma canção
As mãos sonham com
futuros subjuntivos
Arranham o chão de
ladrilhos
Manchas de caramelos e
brigadeiros
Baile de máscaras
fantasmas
Todos os livros da
estante que nunca abrimos
Olham com desejos
lacivos
Deixe-os imaginar as
marcas do sol
Deixe-os advinhar a cor
das toalhas
Deixe-os comentar a
mulher do retrato na gaveta
Mesmo que os anjos virem
a cara
E esperem tudo
acontecer
No tapete vermelho da
sala
Mesmo que o umbigo do
coração
Brigue com as paredes de
cal
Não tentemos
acordar
A brisa da primavera
sopra mansa
Telefone
tocando sem parar
Recados abandonados
no criado mudo
Deixe-os imaginar o que
o passado conta
Deixe-os advinhar o hoje
e o amanhã
Deixe-os comentar nossos
pecados
Carlos
Assis